Lembra quando o e-mule era um sucesso (sim, eu usava o e-mule para baixar músicas, me julguem!)? Lembram quando o magnânimo Steve Jobs sambou na cara das gravadoras com o lançamento da iTunes com músicas por $ 1? Gente, lá se vão DEZ ANOS!!!! CD se tornou item de colecionador, tal qual o tiozão de vinil. (Abro um parêntesis para dizer que eu ainda prefiro o vinil principalmente por aquela estaladinha que são quase um teletransporte para as décadas passadas; experimente ouvir um disco de Elvis, Janis Joplin, Cartola, Bezerra da Silva e tantos outros em uma vitrola. *.* )

Coisas velhas, mas que já foram muito comuns na música: E-Mule, Vitrola e gente que recebe Disco de Ouro no Faustão.

Coisas velhas, mas que já foram muito comuns na música: E-Mule, Vitrola e gente que recebe Disco de Ouro no Faustão.

Há pouquíssimo tempo atrás eu vi, com esses olhos que a terra há de deletar, o Faustão entregando um daqueles “discos de ouro” aprisionados em um quadro gritando “40 MIL CÓPIAS VENDIDAS!” para uma dessas duplas sertanejas. Raridade de se ver hoje em dia. Antes, o disco de Ouro equivalia a venda de 100 mil CDs, esse número foi reduzido à metade em 2004 – um ano após o lançamento da iTunes – e enfim para 40 mil em 2010. A indústria fonográfica teve muita dificuldade para se entender com o mercado digital e por muito tempo ‘forçou’ a venda de CDs, seja disponibilizando somente algumas músicas em versão digital, seja lançando primeiro a versão ‘física’ do álbum e somente depois nas lojas virtuais. A indústria editorial teve um pouco mais de tempo para sentir o terreno; o primeiro livro digital foi publicado em 1994, mas o que viabilizou (e popularizou) os e-books foram o Kindle (lançado em 2007) e o iPad (só em 2010).

Alternativa é a palavra-chave desse texto.

Vocês já devem ter percebido que eu sou daquela vertente ~cafona~ que prefere “meus discos e livros e nada mais”. Parece que não sou a única. Há algumas semanas estive na Bienal do Livro do Rio e confesso que me surpreendi (positivamente). Dos aproximados 660 mil visitantes da feira, 51% tinham entre 15 e 29 anos. Foram vendidos 3,5 milhões de livros. Sim, livros de papel, uma média de seis exemplares por visitante (alguém saiu de lá sem nada, porque só eu comprei 12!).

Alternativa é a palavra-chave desse texto.

Mas o que eu achei interessante não foram os números e sim a presença dos stands “digitais”. A Amazon vendendo Kindles em até 12x nos cartões, a Google Play com um a “Praça Google Play”, visivelmente pensada para o público infanto-juvenil, disponibilizando acesso ao material da loja em tablets e smartphones e a Estante Virtual (que é a mais óbvia) com um desafio: encontrar um livro que não estivesse à venda no site. A segunda coisa que me chamou a atenção foi a postura das editoras/lojas “não digitais” do evento. Todas por onde passei (e não foram poucas) se mostravam muito a vontade com o digital, seja proporcionando uma opção de conversão online, seja oferecendo descontos para compra nos sites, seja disponibilizando o catálogo de e-books em totens, todas encontraram nos digital uma alternativa de negócio.

A Bienal, apesar de ser do Livro, agregou de tudo um pouco. Na imagem: Lobão no stand do Submarino; Praça Google Play; Stand de papelão; Assassins Creed em estátua e páginas; "Arvore de conexão" na Praça Google Play; Pessoas "cafonas" que compram livros de papel.

A Bienal, apesar de ser do Livro, agregou de tudo um pouco. Na imagem: Lobão no stand do Submarino; Praça Google Play; Stand de papelão; Assassins Creed em estátua e páginas; “Arvore de conexão” na Praça Google Play; Pessoas “cafonas” que compram livros de papel.

 

Vou ser repetitiva em dizer mais uma vez que a tecnologia é que serve às pessoas e não o contrário. Existe uma pressão em tornar tudo meio “família Jetson”, tudo touch, tudo eletrônico. Como aquele carro que stalqueia suas redes sociais e fica falando todas as atualizações e aquela geladeira que publica no Facebook. WTF?! Até o abraço foi digitalizado!!! Lembram da cadeira do Outback que dá abraço no aniversariante? Pode parecer #mimimi, mas odiei a ideia.

E fiz todo esse discurso para encerrar dizendo que você precisa pensar nessa hipótese. Pensar na possibilidade de alguns (ou muitos) dos seus clientes/usuários prefiram ter a opção. Pensar que aplicativo não é a solução de tudo na vida. Pensar que nem sempre o meio é a mensagem. Pensar que a tecnologia muda, a história fica. Pensar que seu cliente é mais que uma telinha do outro lado, ele tem pernas, braços, cérebro e nada disso está plugado na tomada. Pensar diferente da modinha.

Não, eu não quero ter 10.000 livros no iPad, tablet, Kindle ou equivalente. E eu agradeço à indústria editorial por entender que alguns hábitos não se digitalizam, por me permitir ter a opção de ser careta, cafona, mainstream, brega (whatever) e escolher livros de papel, afinal de contas ainda não inventaram um e-book com aquele cheiro gostoso de livro novo, nem aquele gesto de passar o dedo na língua antes de virar a página.

Lembram-se qual é a palavra-chave desse texto? 😉